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Baixo São Francisco contaminado: relatório da UFAL alerta situação de risco

UFAL publica versão provisória e resumida do relatório da 3ª. Expedição Científica do Baixo São Francisco e resultados indicam situação precária da qualidade da água e ecossistemas aquáticos no trecho baixo do rio São Francisco.

Há cerca de três anos a UFAL – Universidade Federal de Alagoas, juntamente com a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, UFS – Universidade Federal de Sergipe, UFRPE – Universidade Federal Rural de Pernambuco,  vem realizando campanhas de monitoramento do quadro socioambiental no Baixo São Francisco, em atividade que conta com inúmeros pesquisadores de cerca de quinze instituições de ensino e pesquisa parceiras.

Como explica o professor Emerson Soares, pós doutor em ciências aquáticas da UFAL, coordenador do projeto, as “campanhas apesar de serem pontuais, são propulsoras de atividades realizadas ao longo dos meses durante todo o ano, sendo que para as atividades das pesquisas foram estabelecidas 35 linhas de investigação, como Contaminação e Poluentes e particularmente Oncologia e Fisioterapia das populações [ribeirinhas], pois além de estudar a situação do ambiente aquático e de seus organismos, também avaliamos as condições de saúde da população”.

Na mais recente campanha, em dezembro de 2020, a UFAL verificou o agravamento do quadro socioambiental de forma geral em todo o Baixo São Francisco, situação que deveria ser alerta emergencial para a sociedade em geral e também para os poderes públicos em todos os níveis.

A situação do declínio das espécies da ictiofauna de água doce é grave, e, como explica Soares, “considerando os dados obtidos em 2018 e 2019, se comparados aos que produzimos no final de 2019, há uma redução considerável de espécies de água doce e uma proliferação de espécies aquáticas de água salgada numa proporção de 60% para estas e 40% para aquelas” o que confirma que o rio São Francisco está inserido no quadro mundial sobre espécies de água doce segundo o relatório Word’s Forgotten Fishes, do WWF.

Sobre a contaminação por coliformes no período 2019 a 2020, Soares alerta que “mesmo com a vazão de dezembro (2020) na faixa de 2.700 m³/s, nós encontramos as quantidades de coliformes totais e Escherichia coli que são bactérias associadas a contaminantes altíssimas, com presença em 95% das amostras encontradas em todo o Baixo São Francisco, com índices 20% a 30% maiores do que o recomendado pelas normas da Agência Nacional de Saúde e resolução CONAMA 357/2005” e, prossegue, “sobre sedimento e metais pesados, com monitoramento em trinta pontos a partir de Piranhas, nos preocupa o aumento de metais pesados como arsênio, antimônio, mercúrio e chumbo, em geral decorrentes do uso do solo, uso de agrotóxicos e o solo que se desprende em um ambiente altamente fragmentado em suas áreas marginais, além dos esgotos das cidades, se acumulando no leito do rio”.

Sobre a infestação das algas, situação que hoje compromete gravemente o acesso à água de qualidade pelas populações difusas, o relatório parcial apresenta o aumento de espécies filamentosas (Chlorophyta e Cyanobateria) o que está associado ao processo de Eutrofização do ambiente aquático. São organismos que, segundo Soares, “impactam as captações de água provocado coceiras, distúrbios gastrointestinais sendo que temos observado o aumento dessa população de dinoflagelados e da toxidez do ambiente o que se acentua com a diminuição da vazão”.

O problema da contaminação da água também afeta as espécies aquáticas que, por sua vez vão impactar a saúde coletiva das populações ribeirinhas ao consumir pescado não adequado. Soares ressalta que, “como [atualmente] a primeira posição em produção é da pirambeba e do tucunaré, animais mais ocorrentes em sistemas parados, territorialistas e, consequentemente se contaminam mais facilmente com metais e bio acumulam agrotóxicos em seus organismos, sendo consumidos pela população, contaminando a população.”

“Temos uma situação grave do ponto de vista de saúde pública, pois além da água em condição inadequada em alguns ambientes para consumo, temos o aumento de parasitoses [nos peixes consumidos] que podem causar problemas para o animal e para o homem”.
O relatório revela ainda a fixação, nos organismos de diversas espécies, inclusive aquelas consumidas pela população, de metais pesados, sendo que alguns acima do limite aceitável pelas regras de saúde.
A publicação do relatório em versão completa se dará até meados deste ano.

Veja abaixo a versão resumida.

Veja/descarregue relatório parcial da 3a. Expedição Científica Baixo São São Francisco


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Fontes

UFAL – Universidade Federal de Alagoas