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Sem controle: infestação de algas e vegetação aquática no Baixo São Francisco

O Velho Chico segundo o setor elétrico (e o IBAMA). Foto: Carlos E. Ribeiro Jr./InfoSãoFrancisco

por Redação

O quadro hidrológico imposto pelo setor elétrico ao Baixo São Francisco, com as operações da UHE promovendo descargas extremamente baixas, está acelerando a da expansão dos bancos de vegetação aquática e algas verdes filamentosas invasoras, espécies exóticas aos ecossistemas aquáticos que, além do impacto à biodiversidade nativa, comprometem o acesso à água de qualidade para populações humana difusas.


O verão oficial se aproxima, as águas do rio São Francisco, com vazões mínimas mantidas durante períodos consideráveis abaixo da vazão mínima da LO – Licença de Operação da UHE Xingó (700 m³/s – setecentos metros cúbicos por segundo), estão extremamente aquecidas e o quadro de ocupação da calha por organismos invasores e exóticos se agrava.

As vazões no Baixo São Francisco ao longo de outubro de 2021. Gráfico: ANA/SNIRH

Sem quaisquer ações conhecidas de controle e erradicação, estão em franca expansão os bancos de vegetação macrófitas exóticas como as elódeas (as chamadas localmente rabo de raposa), dentre as espécies mais presentes as quais se associam algas verdes filamentosas.

Nas bordas do espelho d’água a situação é grave, uma vez que, sem correnteza (até 2012, com vazões acima de 1.300 m³/s, ainda no remanescente do padrão da vazão regularizada com a construção da UHE Sobradinho 2.060 m³/s) e sem a ocorrência do remanso (contra corrente contrária ao fluxo do rio observada nas bordas do espelho d’água), há a consolidação de largas faixas de água definitivamente “parada”.

A única variação de movimentação ocorre a partir das variações das vazões da UHE Xingó que, como “marés”, deslocam a borda do espelho d’água em vai-e-vem contínuo, ao longo das horas, acelerando os processos erosivo e de assoreamento nessas zonas.

Veja abaixo vídeo com amostra de uma das zonas afetadas pelos organismos invasores

A presença de macróficas aquáticas exóticas invasoras não é recente. Remonta a no mínimo vinte anos atrás, porém nunca foram objeto de atenção não só por parte dos entes da gestão das águas (incluindo o setor elétrico) mas também dos estados de Alagoas, Sergipe e respectivos municípios ribeirinhos.

Desde 2013, com as reduções das vazões abaixo dos 1.300 m³/s (hum mil e trezentos metros cúbicos por segundo, até então a vazão de restrição mínima do PRHBSF – Plano de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, valor retirado pelo CBHSF – Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco na atualização do PRHBSF em 2016), a ocupação dos organismos se agrava e é objeto inclusive de uma ACP – Ação Civil Pública movida pela organização Canoa de Tolda.

A ação judicial tem como foco a impossibilidade de acesso à água de qualidade pelas populações ribeirinhas difusas, que não contam com sistemas públicos de captação/tratamento de água para consumo humano.

O mês de outubro está próximo do final e até o momento as vazões de 2.500 m³/s (dois mil e quinhentos metros cúbicos por segundo) anunciadas pela CHESF – Companhia Hidro Elétrica do São Francisco via sua Carta Circular SOO-015/2021 (em 28/09) não foram praticadas.

Nos últimos dias as descargas da UHE Xingó estão sendo mantidas na maior parte do tempo abaixo de 1.500 m³/s. Desde o dia 17 as vazões mínimas abaixo de 1.000 m³/s dominam o cenário.

As vazões no Baixo São Francisco desde o dia 16 de outubro. Gráfico: ANA/SNIRH

No fechamento da matéria a vazão da UHE Xingó era de 682,25 m³/s.

Sem informações

A sociedade permanece sem informações, por parte da CHESF a respeito da não adoção das vazões maiores anunciadas em setembro. Tanto no site da empresa como nos sites da ANA – Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, do CBHSF, dos estados de Alagoas e Sergipe, bem como do IBAMA e prefeituras ribeirinhas no Baixo São Francisco não foram encontradas informações sobre o quadro real em contraposição ao anunciado.


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Fontes

CHESF – Companhia Hidroelétrica do São Francisco

ANA – Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico

SNIRH – Sistema Nacional de Informações Sobre Recursos Hídricos