Postado emNotícias / Hidrelétricas

Sem aviso, vazões no Baixo São Francisco são reduzidas criando problemas

Porto de Pão de Açúcar, AL. Foto: José A. Gonçalves

por Redação

Após o pico de vazão [sem comunicação prévia antecipada] no dia 30 de setembro, as vazões defluentes da UHE Xingó no final de semana foram consideravelmente baixas, seguindo o padrão de variações de grande amplitude, sem previsibilidade de máximas, mínimas e tempo de permanência dos extremos.


As populações ribeirinhas, durante o mês de setembro e agora no recém iniciado outubro, têm vivenciado uma caótica operação dos barramentos que não param de variar [muito] entre picos máximos da ordem de 2.744 m³/s (dois mil setecentos e quarenta e quatro metros cúbicos por segundo) e mínimos que chegaram a 695 m³/s. Em fevereiro deste ano foram registradas vazões de 680 m³/s.

Tendo como base para as operações de setembro a comunicação da CHESF – Companhia Hidro Elétrica do São Francisco através da Carta Circular SOO-014/2021 que, a partir das modelagens do ONS – Operador Nacional do Sistema, previa vazão média de 1.500 m³/s cabe observar o gráfico abaixo, onde são representadas as variações da UHE Xingó para obter tal valor.

A diferença entre as máximas e as mínimas são consideráveis e, como estão sendo praticadas sem informações precisas antecipadas (data de ocorrência, vazões máximas e mínimas, tempo de permanência das faixas) provocam inúmeras dificuldades para as diversas atividades que fazem parte dos chamados usos múltiplos das águas do rio São Francisco, onde a prioridade é o acesso à água [em quantidade e de qualidade] por seres humanos.

Veja abaixo o gráfico animado com as variações entre os dias 01 de setembro a 04 de outubro

Variações que afetam a todos: rio e pessoas

Além do comprometimento do acesso à água pelas populações difusas, que se vêm às voltas com suas bombas afetadas pelas variações da vazão imprevisíveis, também o setor da navegação é um dos afetados em todo o Baixo São Francisco.

Um dos exemplos que bem ilustra a situação é a linha da travessia entre o povoado Niterói, no município sergipano do Porto da Folha e a cidade de Pão de Açúcar, na margem alagoana. Essa linha faz parte da principal via de acesso que liga Aracaju com o alto sertão de Alagoas e Pernambuco, e conta com grande tráfego, sobretudo de caminhões.

Desde 2013 que o percurso das balsas que transportam veículos pelo Velho Chico vem sendo alterado não apenas pelo processo acelerado de assoreamento da região (que foi, há alguns anos, dragada pelo governo federal para evitar a suspensão da importante linha) mas também pelas variações do calado (profundidade do percurso por onde passa a embarcação) de acordo com as vazões praticadas.

A travessia entre Niterói, SE (abaixo, na foto) e Pão de Açúcar, AL. A linha verde é o percurso estabelecido com as reduções extremas de vazão em 2016. A linha vermelha é o percurso antigo, com o rio correndo com vazões anteriores. Mapa: InfoSãoFrancisco sobre imagem Google Earth.

“A CHESF adota uma política de vazões, ao meu ver, trás muito prejuízo aos ribeirinhos e à poiuca navegação que ainda sobrevive e ao próprio Velho Chico”, explica José Antônio Gonçalves, armador das balsas que fazem a travessia e que têm enfrentado dificuldades na operação, pois a cada momento a configuração dos pontos de chegada (os chamados portos, no Baixo São Francisco) muda e complica embarque e desembarque dos veículos.

De acordo com José Antônio, na alta da vazão as embarcações são obrigadas a mudar de porto, pois aqueles que são utilizados na baixa do nível da água ficam impraticáveis, submersos, e tudo ocorrendo sem avisos prévios e com antecipação.

O armador ainda entende que “as variações da mínima e máxima com amplitude enorme causando cheias e secas, devem ser revistas: causam assoreamento no rio, problemas de navegação, problemas de captação [de água] e os pescadores com essa maneira do rio se comportar.

Nenhum órgão público levanta o dedo para tomar a inciativa e a bandeira do Velho Chico. Onde está o Ministério Público, as prefeituras ribeirihas, câmaras de vereadores, associações, todos calados. Triste isso”.

Até o fechamento da matéria, o único comunicado conhecido (desde o dia 1º. de setembro último) da CHESF sobre as operações para o mês de outubro foi a Carta Circular SOO-2015/2021 onde a empresa anunciou a operação da UHE Xingó com descargas da ordem de 2.500 m³/s, de acordo com determinação do ONS – Operador Nacional do Sistema.

No site da empresa também não foram encontradas informações sobre as operações recentes de barramentos e as futuras para o Baixo São Francisco.

Veja abaixo a íntegra da Carta Circular SOO-015/2021

Igualmente, não são conhecidas manifestações formais sobre os recentes eventos da parte dos diversos entes da gestão das águas do Velho Chico, como a ANA – Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, CBHSF – Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, governos de Alagoas e Sergipe, municípios ribeirinhos e ainda da sociedade civil.


Leia ainda

Sem comunicado, CHESF antecipa aumento de vazões da UHE Xingó

CHESF é autuada pelo IPHAN por operações que danificaram a histórica canoa Luzitânia

Vazões no Baixo São Francisco poderão subir para 2.500 m³/s em outubro

Baixo São Francisco: em poucas horas, vazões passam de 2.189 m³/s a 717 m³/s

Sem aviso prévio antecipado, vazões da UHE Xingó são elevadas causando problemas


Fontes

CHESF – Companhia Hidroelétrica do São Francisco

ANA – Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico

SNIRH – Sistema Nacional de Informações Sobre Recursos Hídricos