Poucas sementes no semiárido do Baixo São Francisco: caatingas em alto risco

16 de novembro de 2019

Rede InfoSãoFrancisco

 


Com invernos cada vez mais curtos e chuvas insuficientes, a cada ano as floradas nas caatingas do Baixo São Francisco apresentam produção de sementes em declínio, o que é agravado pelas altas temperaturas da crise climática. Sem sementes não há como produzir mudas para o urgente restauro da cobertura vegetal e a conservação do DNA das caatingas

 

A cada ano, no semiárido do Baixo São Francisco, a obtenção de sementes para a produção de mudas nativas vem encontrando crescentes dificuldades. As jornadas para busca e coleta são maiores, mais distantes e os resultados não podem ser considerados muito positivos.

Em meio a mais uma campanha de coleta de sementes para a RMO – Reserva Mato da Onça, o grupo de coletores da UC – Unidade de Conservação vem tendo resultados pouco promissores que colocam em evidência uma das prioridades do programa Caatingas – Meta 2035 que é a consolidação de um banco de DNA com matrizes na poligonal da Reserva.

A cada estação, sementes ficam mais e mais raras. Sem qualquer plano de enfrentamento da crise climática, meio ambiente e populações estão em alto risco. Foto | Canoa de Tolda

É visível, a cada primavera (pelo menos nos últimos dez anos, ainda que com invernos razoáveis, como o de 2017 e o de 2019), a situação de floradas muito curtas em menor  escala, quadro que atinge espécies arbóreas, arbustivas, cipós, cactáceas, dentre as principais. De modo geral, a postura de sementes é rarefeita, se concentrando em algumas zonas onde a ocorrência de chuvas foi mais localizada ou ainda há um remanescente de matas não tão degradadas.

Neste ano de 2019, seguindo a progressiva escassez, espécies como a barriguda ( Ceiba glaziovii ), o mucunã ( Dioclea grandiflora ) , o pereiro ( Aspidosperma pyrifolium ), o lírio da caatinga ( Zephyranthes sylvatica ); o pau d’arco roxo ( Handroanthus impetiginosus) e mesmo o mulungu ( Erytrhima velutina ) não floraram, floraram muito  rapidamente e puseram também em período mínimo poucas sementes, ou ainda floraram ligeiro e não apresentaram qualquer sinal de sementes.

Desmatamento = desertificação = menos matrizes = menos sementes = caatinga sem futuro

Trata-se de situação de extrema gravidade, uma vez que o bioma na região, sem qualquer proteção efetiva, a cada dia perde áreas de suas matas. Estas, por diversas razões, mas sobretudo para a o gado (na região sobrevive, em franco declínio, o remanescente de uma pecuária arcaica de 400 anos, onde o gado não tem mais caatingas para devorar, apenas  pisotear). O desmatamento e queimadas pontuais (as seculares coivaras) quase que cotidianas – não são visíveis por varredura de satélites – ocorrem sem qualquer fiscalização e/ou processos de imposição da recomposição das áreas degradadas que chegam ao extremo do solo completamente nu, quase vitrificado.

Sem caatingas, a desertificação avança (e muito rapidamente, com o aumento sensível das temperaturas potencializado pelas críticas mudanças climáticas) e uma  consequência é a inviabilidade de sucessão das espécies. Cada vez menos há ou haverá, sendo seguido o padrão de devastação sem recomposição da flora e proteção dos solos, possibilidade de manutenção de ciclos naturais com sementes sendo dispersadas, germinando naturalmente e com as plantas evoluindo de forma saudável.

Processos de restauro, ao menos na região, já não podem contar com regeneração natural ou de plantios sem algum tipo de suporte de manutenção ( essencialmente água para as mudas) pela total inviabilidade de germinação natural ou vinga das mudas face às adversas condições climáticas que tendem a piorar.

Espécies já raras, caçadas vorazmente pelo homem se encontram em situação de extrema vulnerabilidade (de supressão definitiva, pelo machado, pelo motosserra ou pelo fogo) individual e de erosão genética (pela diminuição do número de indivíduos). São potenciais matrizes que estão a caminho do fim, comprometendo a conservação do DNA através de suas sementes que seriam destinadas para a produção de mudas.

Outras espécies, mais abundantes, mas extremamente agredidas (como as famosas catingueiras, hoje formando florestas secas com biodiversidade mínima) igualmente pelo machado, fogo e chibanca, estão há anos rebrotando (e sendo novamente detonadas) e não atingirão, jamais, posto que atrofiadas ao extremo, seu porte natural e plena capacidade de floração e produção de sementes.

Chegando ao ponto: sem sementes, não haverá mudas (e são necessários alguns milhões de plantas para alguma realização consistente) e qualquer proposta de projeto de restauro de caatingas será apenas um conceito teórico, no papel ou em um arquivo digital, inexequível.

Sem sementes, não haverá futuro para as caatingas.

 

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Artigo – Germinando uma possibilidade de futuro menos incerto

 


◊ Imagem em destaque – Em busca de sementes pelas caatingas do Baixo São Francisco (o magnífico pau d’arco roxo) – Foto | Canoa de Tolda


 

 


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